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O irmão preso

“Estava na prisão e fostes visitar-me”. 
S. Mateus garante que Cristo se identifica com o preso. Não admira, pois também foi detido, passou uma noite na prisão e foi condenado à pena capital mais dura. Por isso, a Igreja, comunidade dos seus seguidores, incluiu a visita aos presos entre as obras de misericórdia. “Visita” como participação nos seus sofrimentos.

Mas será que damos a esta a mesma força vinculante que atribuímos às outras ações de caridade operativa? Assumimos mesmo as dores dos presos ou achamos que estão muito bem na prisão pelo mal que causaram?

A mente da Igreja tem de realizar uma reviravolta profunda quanto a este aspeto. Tal como a do sistema judiciário português que precisa de uma revolução coperniciana.

Vejamos: em Portugal, o tempo médio do cumprimento da pena é o triplo da União Europeia; temos um rácio de reclusos dos mais altos da EU; quase todas as cadeias estão sobrelotados ou até próximas da rutura; quase não existe formação profissional, atividade laboral e prosseguimento de estudos; a «recuperação» dos ex-detidos é baixa; a assistência religiosa é sistematicamente dificultada na atuação prática dos guardas e outras estruturas; há situações de pobreza tal que fazem com que os detidos nem sequer tenham produtos higiénicos; etc., etc. Para já não falar do investimento na punição em detrimento da prevenção ou da prisão como «escola do crime»…

Isto, da parte do preso. Mas como ele não é uma ilha, a família também sofre imenso, o que acrescenta penas acessórias à condenação imposta pelo tribunal: frequentes condições de grande pobreza; ruturas familiares; abandonos mútuos; exclusões sociais sofridas, inclusivamente, por parte das crianças; negação de trabalho quer ao ex-preso, quer mesmo aos seus próximos; perda do bom nome familiar, etc.

A maturidade cívica e cultural retém que a razão do sistema prisional é restabelecer a justiça e reeducar o culpado. Fora deste quadro mental, caímos na justificação do cárcere medieval como âmbito punitivo e de castigo atroz. O que só gera revolta e juras de vingança, como o comprovam os países onde o sistema é mais repressivo: é aí onde se verifica a maior taxa de criminalidade e reclusão.

Para nós, humanos, a justiça e a misericórdia são dois polos distintos. Mas para Deus não: a sua justiça é misericordiosa. Não nos poderíamos parecer um pouco mais com Deus?

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